quarta-feira, 31 de dezembro de 2008


Cantam-se nas bermas do mundo
As coisas de um fugaz passado
Roubando um sorriso profundo
A quem já o tinha doado.
Creiam, aves migratórias
No que na noite se apresenta:
A sombra escondida às memórias
Ou um gesto perdido na garganta.
Segue-as o vento absorto, distraído,
Enquanto se alimenta da maresia
E que de sede se sente perdido,
Neste crepúsculo fingindo-se dia.
Colhe-se uma flor selvagem
Num jardim domesticada,
Para adornar esta viagem
Em telas de linho pintada.
E se ao fim do mundo se chegar,
Nesse início de vida constante,
Que se possa sorrir ao cantar,
Mesmo do mundo ausente.

Cantiga de Amigo


de João Falcato
Eis que o ano cristão termina, pra mim ainda não...
Mas nem ligo, se é pra continuar, vamos embora....
Para os que foram inteligentes, acredito que não sofreram tanto, mas para aqueles que insistem em quebrar a cara com coisas tolas -saco...
Ao menos agora sei tudo que realmente quero, antes sabia também, mas aceitava qualquer coisa, por não conseguir esperar, talvez me ouvir, que é o mais provável.
Agora vou esperar... e me divertir.
Palavra de ordem: diversão e estudo!!
Quero aprender tudo, tudo em excesso, tudo inteiramente.
Quero aproveitar cada lado dos opostos,
dos iguais?
Exagero...
Não!
Quero a sombra, o crepúsculo.
Quero o sol, a praia.
Todas as variações...
Quero tudo amanhã e agora.
Me contradizer.
Não quero mais querer.
Não ser nunca... somente estar...
Onde houver o cheiro do sonho
Da esperança
Do amor,
Estou.

domingo, 28 de dezembro de 2008


As coincidências assustam

Especialmente quando você fica incrédulo diante de muitas coisas.

Então elas surgem,
Te fazem sorrir e acreditar novamente,
que a qualquer momento poderá acontecer.
Algumas são tão incríveis que acontecem no mesmo momento pra duas pessoas.
Vidas diferentes, situações diferentes?! Nem sempre.
Pérolas do destino... se é que existe.
Eu sabia que devia comprar um vestido de florzinhas... tudo indica um novo caminho...
Devo vestí-lo em casa pra me acostumar com o clima? Talvez seja melhor, para muita
transformação é bom se preparar.
IMPOSSÍVELLLLLL A IDÉIA CONTINUA ABSURDA, HAHAHA
Mas... tentarei pegar um atalho de novo. Se ao menos eu não tivesse sangue nos olhos.
Sabia que este olhar se repetiria. Assim como a velha pergunta, mas com um ponto diferente.
Estaríamos dispostos?

sábado, 27 de dezembro de 2008


Nina Junkie era assunto no banco de trás
do meu carro
Enquanto voejava com amigas
por toda cidade...Em cada olhar, uma saída
fetiches, entorpecida
completamente enlouquecida...
Jogando olhares psicodélicos
por toda cidade
Desfilava intensamente
queimando a idade
Em cada olhar uma saída
abóboras entorpecidas
completamente enlouquecidaaaa.......



é isso aí !!!roque em rouu !!!!!!


Desenho e poesia feitos por
Helder Oliveira

terça-feira, 23 de dezembro de 2008




Coisa mais fofa do mundo!
Estréia em desenho na TV Cultura, só pra crianças felizes e saudáveis,rsrsrs
Diálogo em episódio do desenho

Zé Vampir
Credo! Que cara é essa, Penadinho?

Penadinho
É que eu dormi muito mal, Zé Vampir!
Zé Vampir
Você andou sonhando com borboletas e querubins, de novo?

Penadinho
Sabe...ontem, teve festa da turma do Zé Finado, e foi até altas horas!

Zé Vampir
Naquela cripta com vista para o limbo? Ele sempre faz essas festanças e não me convida !

Penadinho
Só que eu exagerei e bebi refrigerante demais!

Zé Vampir
Eu sempre digo que sangue é melhor!


segunda-feira, 22 de dezembro de 2008












A vida é sempre curiosa e fantástica. Ontem vi seus desenhos e vivi seus desenhos. Surreal...





por Helder Oliveira

sábado, 20 de dezembro de 2008


Que tipo de seres estamos nos tornando?


Uma farmácia e uma banca de jornal são assaltadas às três horas
E o povo em volta vê e não faz nada...
Uma moça é abordada por dois homens pela manhã, mas a mulher que viu não podia parar pra ajudar, senão chegaria atrasada ao trabalho...
Um cachorro é atropelado, mas o cara não pára pra ajudar, pois é só um cachorro e também porque ele pode estar atrasado para algum compromisso...

O povo do mundo de baixo anda deitando e rolando nas nossas caras e simplesmente olhamos com medo... sem reação.

Até quando dar a outra face? Foi isso que Ele nos ensinou?
Mas eis que todos vão às férias, às praias, às compras, muitas compras...
E daremos Feliz Natal e Feliz Ano Novo...
Depois do Carnaval a gente pensa nisso...

Vou ajoelhar no milho!!

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008


Passagens

Veio o forte,
parecia determinado,
mas não deu pra descobrir em que...

O de olhar vago:
só confusão...

O meigo:
uma névoa... passou sem eu querer que fosse, somente névoa.

Assim como entraram
Sairam.
Sem explicação, sem compreensão,
Algo ficou, mas não gosto
do gosto...
Passam, passam e todos passam...
Talvez eu deva passar também!?
Como consigo transformar simples ficadas em tanta coisa?
Será que estou me tornando uma poetisa? Ou somente as minhas ilusões estão vindo à tona?
Dare
It's coming up
It's coming up
It's coming up
It's coming up
It's coming up
It's coming up
It's DARE
It's DARE
You've got to press it on you
You just, think it
That's what you do, baby
Hold it down, DARE
Jump with the moon and move it
Jump back and forth It feels like you would let yourself
work it out
Never did no harm
Never did no harm It's DARE
It's coming up
It's coming up
It's coming up
It's coming up
It's coming up
It's DARE
It's DARE
You've got to press it on you
You just, think it,
That's what you do, baby
Hold it down, DARE
Jump with the moon and move it
Jump back and forth
It feels like you would let yourself
work it out
Never did no harm
Never did no harm
It's DARE It's coming up
It's coming up
It's coming up
It's coming up
It's coming up
It's DARE
It's DARE
Never did no harm
Never did no harm
It's DARE
It's coming up
It's coming up
It's coming up
It's coming up
It's coming up
It's DARE
You've got to press it on you
You just, think it,
That's what you do, baby
Hold it down, DARE
Jump with the moon and move it
Jump back and forth It feels like you would let yourself work it out
You've got to press it on you You just, think it,
That's what you do, baby
Hold it down, DARE
Jump with the moon and move it
Jump back and forth It feels like you would let yourself work it out

Gorillaz

quinta-feira, 18 de dezembro de 2008


Vou ouvir

Aquele conselho de 20 anos atrás:

Comprar um vestido de florzinhas, ser mais alegre, passeios diferentes, pessoas diferentes...

Prometo que tento durante ... um segundo...
Não adianta... o idéia difícil essa!

Pensarei em outra tática, mas de uma coisa tenho certeza, estas lágrimas vão acabar, especialmente este exagero de sangue,rsrsrs


Vida Novaaaaaaaaaaa

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008




Passa o tempo, mas as lágrimas permanecem...


Talvez se eu parasse de pensar no sofrimento de todos, o sangue pararia, mas a cada dia piores crueldades são cometidas.


Ah minha doce Anny onde quer que você esteja, me diz se ainda acredita na bondade humana?


Clamo em desespero para que venha logo nos governar, e por fim a todos os abusos, que hoje em dia nem mais pelo Seu nome são cometidos; simplesmente são...


Tento relaxar, mas até mesmo nas coisas mais frívolas vêm as mensagens que me fazem voltar. Assim não vale!! Posso me distrair? Que saco...


Gelo, gelo, gelo.


Quero divagar... divagar, se isso não me fizesse voltar a origem deste. O choro, sangue.


Que se afoguem neste vinho, todas as lágrimas, já que pelo mar elas jamais irão de tão manchadas que estão.
Sempre pensei em uma rosa chorando lágrimas de sangue... curioso... você também. Doce felicidade.





segunda-feira, 8 de dezembro de 2008



Aviso da lua que menstrua

Moço, cuidado com ela!
Há que se ter cautela com esta
gente que menstrua...
Imagine uma cachoeira às avessas:
cada ato que faz, o corpo confessa.
Cuidado, moço às vezes parece erva, parece hera
cuidado com essa gente que gera
essa gente que se metamorfoseia
metade legível, metade sereia.
Barriga cresce, explode humanidades
e ainda volta pro lugar que é o mesmo lugar
mas é outro lugar, aí é que está:
cada palavra dita, antes de dizer, homem, reflita..
Sua boca maldita não sabe que cada palavra é ingrediente
que vai cair no mesmo planeta panela.
Cuidado com cada letra que manda pra ela!
Tá acostumada a viver por dentro,
transforma fato em elemento
a tudo refoga, ferve, frita
ainda sangra tudo no próximo mês.
Cuidado moço, quando cê pensa que escapou
é que chegou a sua vez!
Porque sou muito sua amiga
é que tô falando na "vera"
conheço cada uma, além de ser uma delas.
Você que saiu da fresta dela
delicada força quando voltar a ela.
Não vá sem ser convidado ou sem os devidos cortejos..
Às vezes pela ponte de um beijo
já se alcança a "cidade secreta" a Atlântida perdida.
Outras vezes várias metidas e mais se afasta dela.
Cuidado, moço, por você ter uma cobra entre as pernas
cai na condição de ser displicente
diante da própria serpente
Ela é uma cobra de avental
Não despreze a meditação doméstica
É da poeira do cotidiano
que a mulher extrai filosofando
cozinhando, costurando e você chega com a mão no bolso
julgando a arte do almoço: Eca!...
Você que não sabe onde está sua cueca?
Ah, meu cão desejado
tão preocupado em rosnar, ladrar e latir
então esquece de morder devagar
esquece de saber curtir, dividir.
E aí quando quer agredir
chama de vaca e galinha.
São duas dignas vizinhas do mundo daqui!
O que você tem pra falar de vaca?
O que você tem eu vou dizer e não se queixe:
VACA é sua mãe. De leite.
Vaca e galinha...
ora, não ofende. Enaltece, elogia:
comparando rainha com rainha
óvulo, ovo e leite
pensando que está agredindo
que tá falando palavrão imundo.
Tá, não, homem.
Tá citando o princípio do mundo!


Elisa Lucinda

domingo, 7 de dezembro de 2008



Antes era o verbo, depois as imagens... agora inverti tudo...

Já troquei o romantismo pelo realismo, mas não dá. Durou só três dias, isso enjoa. Gosto de sentir muito, muito e muito. Senão fosse tanto trabalho já estaria apaixonada de novo.

Quero tempo pra me apaixonar, sem isso não tem muita graça. Quero todas as besteiras relacionadas. Amar e ficar boba, que saco, tanto trabalho e eu sem tempo para viver...

Hei de pirar de novo...

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008




Good Night Mister Moon,







Já está amanhecendo e você não percebe que não querem seus sentimentos?
Cada briga ao luar, cada gesto obsceno, assassinato, crianças se drogando
Mendigos, sujeira, homens que mal conseguem colocar a cabeça no travesseiro, farsas, máscaras...
Enquanto você brilha...
Será mesmo que quer esta luz refletida sobre esta cidade?
A cada toque de luar um lado da face sente a dor.
Boa noite Sr Lua,
Agora é hora dos olhos abrirem, pois o sol já vem
para nos queimar, sem conseguir nos purificar.

terça-feira, 2 de dezembro de 2008


Infelizmente alguns pesadelos não se apagam com o tempo, eles parecem querer conviver com você.
Seria bom se as coisas ruins que acontecem na vida, simplesmente sumissem, sem deixar rastros.

Disso tudo aprendi, que é preciso muito cuidado com quem você coloca na sua vida, pois aquilo pode te atormentar muito... argh!!
Talvez eu seja mais fácil, pois quando as coisas acabam, eu saio. Mas nem todos são assim... ficam ali... insistindo.
Um dos meus prediletos. Imortal.

Conto: Famigerado

Foi de incerta feita - o evento. Quem pode esperar coisa tão sem pés nem cabeça? Eu estava em casa, o arraial sendo de todo tranqüilo. Parou-me à porta o tropel. Cheguei à janela.
Um grupo de cavaleiros. Isto é, vendo melhor: um cavaleiro rente, frente à minha porta, equiparado, exato; e, embolados, de banda, três homens a cavalo. Tudo, num relance, insolitíssimo. Tomei-me nos nervos. O cavaleiro esse o oh-homem-oh - com cara de nenhum amigo. Sei o que é influência de fisionomia. Saíra e viera, aquele homem, para morrer em guerra. Saudou-me seco, curto pesadamente. Seu cavalo era alto, um alazão; bem arreado, ferrado, suado. E concebi grande dúvida.
Nenhum se apeava. Os outros, tristes três, mal me haviam olhado, nem olhassem para nada. Semelhavam a gente receosa, tropa desbaratada, sopitados, constrangidos - coagidos, sim. Isso por isso, que o cavaleiro solerte tinha o ar de regê-los: a meio-gesto, desprezivo, intimara-os de pegarem o lugar onde agora se encostavam. Dado que a frente da minha casa reentrava, metros, da linha da rua, e dos dois lados avançava a cerca, formava-se ali um encantoável, espécie de resguardo. Valendo-se do que, o homem obrigara os outros ao ponto donde seriam menos vistos, enquanto barrava-lhes qualquer fuga; sem contar que, unidos assim, os cavalos se apertando, não dispunham de rápida mobilidade. Tudo enxergara, tomando ganho da topografia. Os três seriam seus prisioneiros, não seus sequazes. Aquele homem, para proceder da forma, só podia ser um brabo sertanejo, jagunço até na escuma do bofe. Senti que não me ficava útil dar cara amena, mostras de temeroso. Eu não tinha arma ao alcance. Tivesse, também, não adiantava. Com um pingo no i, ele me dissolvia. O medo é a extrema ignorância em momento muito agudo. O medo o. O medo me miava. Convidei-o a desmontar, a entrar.
Disse de não, conquanto os costumes. Conservava-se de chapéu. Via-se que passara a descansar na sela - decerto relaxava o corpo para dar-se mais à ingente tarefa de pensar. Perguntei: respondeu-me que não estava doente, nem vindo à receita ou consulta. Sua voz se espaçava, querendo-se calma; a fala de gente de mais longe, talvez sãofranciscano. Sei desse tipo de valentão que nada alardeia, sem farroma. Mas avessado, estranhão, perverso brusco, podendo desfechar com algo, de repente, por um és-não-és. Muito de macio, mentalmente, comecei a me organizar. Ele falou:
- “Eu vim preguntar a vosmecê uma opinião sua explicada...”
Carregara a celha. Causava outra inquietude, sua farrusca, a catadura de canibal. Desfranziu-se, porém, quase que sorriu. Daí, desceu do cavalo; maneiro, imprevisto. Se por se cumprir do maior valor de melhores modos; por esperteza? Reteve no pulso a ponta do cabresto, o alazão era para paz. O chapéu sempre na cabeça. Um alarve. Mais os ínvios olhos. E ele era para muito. Seria de ver-se: estava em armas - e de armas alimpadas. Dava para se sentir o peso da de fogo, no cinturão, que usado baixo, para ela estar-se já ao nível justo, ademão, tanto que ele se persistia de braço direito pendido, pronto meneável. Sendo a sela, de notar-se, uma jereba papuda urucuiana, pouco de se achar, na região, pelo menos de tão boa feitura. Tudo de gente brava. Aquele propunha sangue, em suas tenções. Pequeno, mas duro, grossudo, todo em tronco de árvore. Sua máxima violência podia ser para cada momento. Tivesse aceitado de entrar e um café, calmava-me. Assim, porém, banda de fora, sem a-graças de hóspede nem surdez de paredes, tinha para um se inquietar, sem medida e sem certeza.
- “Vosmecê é que não me conhece. Damázio, dos Siqueiras... Estou vindo da Serra...”
Sobressalto. Damázio, quem dele não ouvira? O feroz de estórias de léguas, com dezenas de carregadas mortes, homem perigosíssimo. Constando também, se verdade, que de para uns anos ele se serenara - evitava o de evitar. Fie-se, porém, quem, em tais tréguas de pantera? Ali, antenasal, de mim a palmo! Continuava:
- “Saiba vosmecê que, na Serra, por o ultimamente, se compareceu um moço do Governo, rapaz meio estrondoso... Saiba que estou com ele à revelia... Cá eu não quero questão com o Governo, não estou em saúde nem idade... O rapaz, muitos acham que ele é de seu tanto esmiolado...”
Com arranco, calou-se. Como arrependido de ter começado assim, de evidente. Contra que aí estava com o fígado em más margens; pensava, pensava. Cabismeditado. Do que, se resolveu. Levantou as feições. Se é que se riu: aquela crueldade de dentes. Encarar, não me encarava, só se fito à meia esguelha. Latejava-lhe um orgulho indeciso. Redigiu seu monologar.
O que frouxo falava: de outras, diversas pessoas e coisas, da Serra, do São Ão, travados assuntos, inseqüentes, como dificultação. A conversa era para teias de aranha. Eu tinha de entender-lhe as mínimas entonações, seguir seus propósitos e silêncios. Assim no fechar-se com o jogo, sonso, no me iludir, ele enigmava. E, pá:
- “Vosmecê agora me faça a boa obra de querer me ensinar o que é mesmo que é: fasmisgerado... faz-me-gerado... falmisgeraldo... familhas-gerado...?
Disse, de golpe, trazia entre dentes aquela frase. Soara com riso seco. Mas, o gesto, que se seguiu, imperava-se de toda a rudez primitiva, de sua presença dilatada. Detinha minha resposta, não queria que eu a desse de imediato. E já aí outro susto vertiginoso suspendia-me: alguém podia ter feito intriga, invencionice de atribuir-me a palavra de ofensa àquele homem; que muito, pois, que aqui ele se famanasse, vindo para exigir-me, rosto a rosto, o fatal, a vexatória satisfação?
- “Saiba vosmecê que saí ind'hoje da Serra, que vim, sem parar, essas seis léguas, expresso direto pra mor de lhe preguntar a pregunta, pelo claro...”
Se sério, se era. Transiu-se-me.
- “Lá, e por estes meios de caminho, tem nenhum ninguém ciente, nem têm o legítimo - o livro que aprende as palavras... É gente pra informação torta, por se fingirem de menos ignorâncias... Só se o padre, no São Ão, capaz, mas com padres não me dou: eles logo engambelam... A bem. Agora, se me faz mercê, vosmecê me fale, no pau da peroba, no aperfeiçoado: o que é que é, o que já lhe perguntei?”
Se simples. Se digo. Transfoi-se-me. Esses trizes:
- Famigerado?
- “Sim senhor...” - e, alto, repetiu, vezes, o termo, enfim nos vermelhões da raiva, sua voz fora de foco. E já me olhava, interpelador, intimativo - apertava-me. Tinha eu que descobrir a cara. - Famigerado? Habitei preâmbulos. Bem que eu me carecia noutro ínterim, em indúcias. Como por socorro, espiei os três outros, em seus cavalos, intugidos até então, mumumudos. Mas, Damázio:
- “Vosmecê declare. Estes aí são de nada não. São da Serra. Só vieram comigo, pra testemunho...”
Só tinha de desentalar-me. O homem queria estrito o caroço: o verivérbio.
- Famigerado é inóxio, é “célebre”, “notório”, “notável”...
- “Vosmecê mal não veja em minha grossaria no não entender. Mais me diga: é desaforado? E caçoável? E de arrenegar? Farsância? Nome de ofensa?”
- Vilta nenhuma, nenhum doesto. São expressões neutras, de outros usos...
- “Pois... e o que é que é, em fala de pobre, linguagem de em dia-de-semana?”
- Famigerado? Bem. É: “importante”, que merece louvor, respeito...
- “Vosmecê agarante, pra a paz das mães, mão na Escritura?”
Se certo! Era para se empenhar a barba. Do que o diabo, então eu sincero disse:
- Olhe: eu, como o sr. me vê, com vantagens, hum, o que eu queria uma hora destas era ser famigerado - bem famigerado, o mais que pudesse!...
- “Ah, bem!...” - soltou, exultante.
Saltando na sela, ele se levantou de molas. Subiu em si, desagravava-se, num desafogaréu. Sorriu-se, outro. Satisfez aqueles três: - “Vocês podem ir, compadres. Vocês escutaram bem a boa descrição...” - e eles prestes se partiram. Só aí se chegou, beirando-me a janela, aceitava um copo d’água. Disse: - “Não há como que as grandezas machas duma pessoa instruída!” Seja que de novo, por um mero, se torvava? Disse: - “Sei lá, às vezes o melhor mesmo, pra esse moço do Governo, era ir-se embora, sei não...” Mas mais sorriu, apagara-se-lhe a inquietação. Disse: - “A gente tem cada cisma de dúvida boba, dessas desconfianças... Só pra azedar a mandioca...” Agradeceu, quis me apertar a mão. Outra vez, aceitaria de entrar em minha casa. Oh, pois. Esporou, foi-se, o alazão, não pensava no que o trouxera, tese para alto rir, e mais, o famoso assunto.

João Guimarães Rosa