domingo, 12 de agosto de 2007


O Amor

E alguém disse: fala-nos do Amor.

- Quando o amor vos fizer sinal, segui-o;

ainda que os seus caminhos sejam duros e difíceis.

E quando as suas asas vos envolverem, entregai-vos;

ainda que a espada escondida na sua plumagem vos possa ferir.

E quando vos falar, acreditai nele;

apesar de a sua voz poder quebrar os vossos sonhos como o vento norte ao sacudir os jardins. Porque assim como o vosso amor vos engrandece, também deve crucificar-vos

E assim como se eleva à vossa altura e acaricia os ramos mais frágeis que tremem ao sol, também penetrará até às raízes sacudindo o seu apego à terra.

Como braçadas de trigo vos leva.

Malha-vos até ficardes nus.

Passa-vos pelo crivo para vos livrar do joio.

Mói-vos até à brancura.

Amassa-vos até ficardes maleáveis.

Então entrega-vos ao seu fogo,

para poderdes ser o pão sagrado no festim de Deus.

Tudo isto vos fará o amor,

para poderdes conhecer os segredos do vosso coração,

e por este conhecimento vos tornardes o coração da Vida.

Mas, se no vosso medo,

buscais apenas a paz do amor, o prazer do amor,

então mais vale cobrir a nudez e sair do campo do amor,

a caminho do mundo sem estações, onde podereis rir,

mas nunca todos os vossos risos, e chorar,

mas nunca todas as vossas lágrimas.

O amor só dá de si mesmo, e só recebe de si mesmo.

O amor não possui nem quer ser possuído.

Porque o amor basta ao amor.

E não penseis que podeis guiar o curso do amor;

porque o amor, se vos escolher, marcará ele o vosso curso.

O amor não tem outro desejo senão consumar-se.

Mas se amarem e tiverem desejos, deverão ser estes:

Fundir-se e ser um regato corrente a cantar a sua melodia à noite.

Conhecer a dor da excessiva ternura.

Ser ferido pela própria inteligência do amor, e sangrar de bom grado e alegremente.

Acordar de manhã com o coração cheio e agradecer outro dia de amor.

Descansar ao meio dia e meditar no êxtase do amor.

Voltar a casa ao crepúsculo e adormecer tendo no coração uma prece pelo bem amado,

e na boca, um canto de louvor.
( Gibran Khalil Gibran )

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